sexta-feira, maio 20, 2005

Sonata para Cravo

Tudo se inicia com um silêncio desconcertante...
É tempo de harmonia,
Tempo de preparar os sentidos...
Tempo de amanhar a alma
De procurar um esquecimento doce.
E começa então,
Os sons dançam,
As mãos brincam,
O marfim brilha intensamente...
Quase se vêm os sons
Metálicos, incisivos, curtos, longos...
É agora tempo de nos abandonarmos
Ao som reinante.
Sentir as penas nas cordas
Olhar fixamente para as duas mãos
Que vão e vêm...
Olhai!
Vão e vêm...
Aqui acariciam a tecla,
Ali batem mais forte...
Reparem agora nos olhos da concertante...
Nunca percebi,
Olham para a pauta?
Olham para as teclas de marfim?
Pousam no vazio, intenso?
Mas as mãos...
Olhai as mãos!
Saltitam aqui,
Ali parecem duas senhoricas, presunçosas, mesmo vaidosas...
Agora não!
Agora são mafarricas, marotas...
E como saltitam!
A pouco e pouco o ritmo aumenta...
É tempo agora de nos preparar,
A dança dos sons torna-se alucinante,
É tempo de nos preparar...
O fim está a chegar...
É tempo...
Agora!!!...
Tudo acaba com um silêncio desconcertante...
Quase se vê este silêncio...
Alguém bate palmas...
Afinal, todos batem palmas, sim, eu bato palmas...
Mas queria ter agarrado aquele silêncio,
Aquele silêncio sonoro, que sempre se ouve no final de uma sonata,
Um silêncio intenso, sublime, quase presunçoso...
Vaidoso...

Amadora, 20.05.03

Ao Vasco Ribeiro
Com um abraço


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